O umbigo do R10

Quarta, 2 de novembro de 2011


José Pedro Goulart



Domingo último dei uma voltinha pelos aspectos sombrios da minh'alma. Deixei de lado o caminho em direção à compreensão e ao equilíbrio, o qual gosto de pensar que me oriento, e provei um gole do veneno inebriante da vingança. Já sóbrio como agora estou diria, se acreditasse que seria ouvido: "Pai, afasta de mim esse cálice". Julgamentos públicos são perigosos, deixam marcas eternas, isso quando não são letais.


Se qualquer paixão tem preço, imagine no futebol. A paixão é um sentimento brutal de fé. Esperamos por parte de quem depositamos nossa paixão que nos seja devolvido, se possível com juros, toda energia gasta com nosso desprendimento amoroso. Ídolos não deveriam envelhecer, errar, muitos menos nos trair.


A arquitetura dos sentimentos tem pilares conhecidos. A família, por exemplo, por mais que se tenham razões em rompimentos o coração resiste em manter o vínculo afetivo que assegure um certo alento. Há também as amizades de infância, nossa rua, cidade, comunidade: as tais raízes.


Há dez anos, quando Ronaldinho escapou do Grêmio pela porta dos fundos a mãe dele justificou o desaforo: "Os filhos pertencem ao mundo". Nunca esqueci. E agora, sob vaias ensurdecedoras, disse o R10, "Perto do som da torcida do Flamengo, isso não é nada". Duas lógicas parecidas, duas distorções fraudulentas. Ninguém - o poeta sabe, todas as mães deveriam saber - pertence ao mundo, isso é uma generalização paroquial. A gente pertence ao umbigo.


E ao falar da torcida do Flamengo, Ronaldinho apela por proteção. Imagina que pode substituir o chá que é fervido com a raiz da árvore genealógica dele por outra alquimia. Mas não pode. O Flamengo é o umbigo do Zico, o Galinho de Quintino; a casa do Júnior; e até do Fio Maravilha. A bandeira rubro-negra já tem passista e mestre sala, o samba do Flamengo já tem autores. R10 no Flamengo nunca será.


O roteiro do jogo de domingo foi como os bons roteiros devem ser, teve prenúncio de tragédia e reviravolta. Começou parecendo que daria razão aos pragmáticos, os tolos do ouro; mas terminou com a poesia ilusória de que certos ajustes de contas insinuam. Assim, mesmo o chute do jogador mais improvável saiu preciso quando foi preciso e o goleiro tomou o gol quando deveria, como se fossem atores cumprindo um papel. Em todos havia uma sede de remissão dostoievskiana. A torcida lavou a alma.

No final os personagens saíram de cena e cada um foi para o seu canto, ruminando verdades sobre honras e circunstâncias. Outros, os que não tinham canto, foram pro limbo.