Cavalo no asfalto

Quarta, 7 de setembro de 2011


José Pedro Goulart


A figura de um cavalo é reveladora, apesar de imponente, vigoroso, o animal mantém a cabeça baixa. Como se soubesse da injustiça da natureza que o obriga por índole a aceitar que lhe montem, que lhe cravem esporas no couro, ou lhe chicoteiem o lombo. Talvez o cavalo seja assim porque não tenha uma grande arma de ataque ou defesa, no máximo um coice, uma mordida.


Mas na verdade eu queria contar uma história. Uma noite, dessas que tem feito em Porto Alegre, fria e úmida, eu ia para casa de auto quando me deparei com um cavalo solto na rua. Ele não estava na calçada, sequer no acostamento, mas no meio da rua mesmo, como se fosse mais um veículo da cidade, autorizado e emplacado.


Havia outros carros, a iminência era de uma tragédia, já que ainda por cima era um cavalo de pelo escuro. De modo que resolvi ficar na retaguarda, liguei o pisca-alerta, buzinei para ver se ele saía da frente, mas nada. Ele apenas galopava, casco no asfalto, algo desesperado.


Fiquei quase por um quilômetro comboiando aquele cavalo. Das fuças do animal saía fumaça; a crina ia crispada, irradiada pela contraluz dos faróis dos automóveis. A seqüência era para frente, sempre para frente, em linha reta, cada vez mais dentro da noite úmida. Quase que dava para escutar o coração do animal disparado em sintonia com o meu, tal eram as sensações que a cena proporcionava; tudo isso, toda imagem, todo o sentimento, podia ser definido numa única palavra, nessa palavra: medo.


O galope era uma valsa entre o imaginário e o improvável. Certas cenas são simbólicas, metáforas do que anda grudado na nossa memória. Aquilo que se dissipa nos sonhos, ou aparece em sobressaltos sem sentido aparente. O medo que senti não vinha só do perigo iminente, era algo perene, algo que já vinha comigo; quem sabe possa ser atribuído às inseguranças e incertezas da vida, sei lá. Ou talvez seja pelo descontrole sobre tudo, sobre as coisas, as pessoas, o amor, a morte ou cavalos soltos na rua.


Quando a avenida se estreitou, o cavalo resolveu abandonar a reta e dobrou para a direita. Cruzou a extensão que ia da frente do meu carro e dos outros que vinham e desapareceu. Parei o carro, abri o vidro, tomei um pouco de ar; e fiquei meditando um pouco, aparentemente tudo estava calmo, até o medo diminuíra.


De maneira que a vida podia agora seguir seu curso normal. Tecendo enredos inacabados, como as aranhas tecem teias, de tamanhos e formas diferentes, tentando capturar um sentido onde reside o aleatório e o imprevisível.